terça-feira, 30 de novembro de 2010

Carta de Leon Tolstói para Gandhi


Kotcheti, 7 de setembro de 1910

Seu jornal, o Indian Opinion, chegou, e fiquei encantado ao descobrir quanta coisa foi escrita, por lá, por aqueles que praticam a não-violência. Gostaria de partilhar com você meus pensamentos, depois de ler esse material.

À medida que envelheço e agora que sinto tão claramente a aproximação da morte, desejo contar aos demais as coisas que me comovem especialmente.
Desejo falar sobre o que me parece de extrema importância, sobretudo da chamada não-violência (mas que, na verdade, é o ensinamento do amor, sem as falsas interpretações).
A maioria das pessoas sente, nas profundezas de suas almas (percebemos isso mais nitidamente nas crianças), que o amor, ou seja, o esforço das almas humanas na direção da unidade, e a atividade que decorre desse esforço, é a lei mais elevada da vida humana – sentem essa verdade, quero dizer, até que o mundo as envolva com seus falsos ensinamentos. Todos os grandes profetas – indianos, chineses, judeus, gregos ou romanos – proclamaram essa lei.
Mas acho que foi Cristo quem a expressou mais irrefutavelmente, quando declarou, de forma explícita, que o Antigo Testamento e todas as profecias verdadeiras apóiam-se nessa lei suprema. Tendo previsto suas possíveis distorções, Cristo destacou os perigos que ameaçam quem vive de acordo com interesses mais mundanos; especificamente, mencionou o perigo de deixar alguém defender interesses mundanos utilizando a força (ou seja, devolvendo uma agressão com outra, reapropriando-se com a força de objetos roubados etc.). Cristo sabia, como sabe qualquer pessoa de bom senso, que o uso da violência é incompatível com a lei básica do amor e que, quando a violência é tolerada, revela-se o desrespeito à lei do amor e ela é repudiada. A civilização cristã, tão magnífica superficialmente, foi fundada sobre esse mal-entendido e essa contradição, às vezes consciente mas, na maioria das vezes, inconsciente.
Por razões intrínsecas, sempre que a resistência teve condições para existir lado a lado com o amor, este não pôde mais continuar como lei fundamental. A única lei que sobreviveu foi a da força – o poder do mais forte sobre o mais fraco. É assim que, há dezenove séculos, vivem os cristãos.
Admito que, em todos os tempos, as pessoas, na maioria das vezes, guiaram-se pela violência, ao tentarem organizar suas vidas. A única diferença entre a civilização cristã e as demais é que a cristandade expressou claramente essa contradição. Enquanto os cristãos aceitam essa lei, ao mesmo tempo não obedecem a ela em suas vidas privadas. Daí os cristãos viverem uma contradição, a de basearem suas vidas na violência, enquanto pregam o amor.
Essa contradição continuou a aumentar enquanto o mundo cristão progredia, e chegou recentemente a novos pontos culminantes. A questão, agora, é a seguinte: ou reconhecemos que não devemos seguir quaisquer ensinamentos religiosos ou morais, e nos guiamos pelo poder dos fortes, ou reconhecemos que nossos impostos são cobrados à força e que nossas instituições (nossos tribunais, nossa polícia e – acima de tudo – nossos exércitos) devem ser suprimidas.
Na primavera passada, durante um exame em torno da Bíblia, em Moscou, o professor, um bispo, perguntou às moças que estavam sendo examinadas alguma coisa sobre os mandamentos, especialmente o sexto. Quando a resposta correta foi dada, o bispo, de acordo com a rotina, fez outra pergunta: "O assassinato é sempre proibido pela Bíblia?" As pobres moças, corrompidas pelos seus mentores, tiveram de responder "nem sempre". O assassinato, como haviam sido ensinadas a dizer, é permitido em tempo de guerra e na execução de criminosos. Mas, quando uma dessas pobres moças (esta é uma história verdadeira, que me foi contada, recentemente, por uma testemunha ocular), depois de dar sua resposta, foi submetida a outra pergunta de rotina – se assassinar é sempre pecado – respondeu, corando nervosamente: "Sim, é sempre pecado". Quando lhe pediram para explicar melhor, ela destacou que, mesmo no Antigo Testamento, matar é proibido; acrescentou que Cristo, no NovoTestamento, igualmente proibira a perpetração do mal contra irmãos. Apesar de sua eloqüência famosa, o bispo foi obrigado a se calar e a moça saiu do exame vitoriosa.
Sim, podemos falar em nossos jornais sobre os sucessos da aviação, sobre complexas relações diplomáticas, sobre clubes, invenções, alianças de todos os tipos, ou sobre as chamadas obras de arte, porém ainda ignoramos o que a moça, em Moscou, disse ao bispo. Mas não devíamos ignorar. Todos, no mundo cristão, sabem disso – sabem mais ou menos vagamente, mas sabem. Socialismo, comunismo, anarquismo, o Exército da Salvação, o aumento da criminalidade, o desemprego, o contínuo luxo das classes ricas e a indigência dos pobres, até mesmo o percentual de suicídios – tudo isso assinala essa contradição interna, que deve ser resolvida e, naturalmente, resolvida através do reconhecimento da lei do amor.
E então seu trabalho no Transvaal, para nós o outro lado do mundo, é a mais fundamental e importante de todas as tarefas que estão senho realizadas, neste momento, no mundo, e não apenas os cristãos, mas todas as pessoas, inevitavelmente, participarão dela. Acho que ficará satisfeito de saber que esse trabalho também se desenvolve rapidamente na Rússia, sob a forma de recusas a cumprir serviço militar, movimento que cresce a cada ano. Por mais insignificante que seja o número de pessoas, em seu povo ou no nosso, praticantes da não-violência, todas podem dizer, ousadamente, que Deus está com elas. E Deus é mais poderoso do que os homens.
Aceitando o cristianismo, mesmo sob a forma distorcida como é atualmente seguido, e aceitando, ao mesmo tempo, a necessidade de exércitos e de armas para matar, em guerras com escala tão gigantesca, os governos expressam uma contradição tão gritante que, mais cedo ou mais tarde, provavelmente cedo, serão desmascarados. Então, ou acabarão com o cristianismo (que lhes tem sido útil na manutenção do poder) ou com a existência dos exércitos e com a violência que eles mantêm. Todos os governos – inclusive o seu, britânico, e o nosso, russo – sentem agudamente essa contradição; como resultado, atacam com toda energia os que praticam a não-violência, por um sentimento de autopreservação. Os governos sabem quem é o inimigo e se mantêm atentos aos seus próprios interesses, conscientes de que sua existência mesma está em perigo.

Leon Tolstói

Fonte: http://niltemir.blogspot.com/2010/05/carta-para-gandhi.html

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